RuyGoiaba

Quem é que joga fumaça pro alto?

13.08.21

Não há nada que eu goste mais do que ver minha coluna se escrevendo sozinha: o próprio Bananão — país da piada pronta, na perene definição do Zé Simão — capricha na produção abundante de cretinices, e meu único trabalho é selecionar os “melhores momentos”, como faz a TV no final de um jogo de futebol (no meu caso, a melhor analogia seria com os highlights negativos: o chute a gol que saiu pela lateral, o frangaço do goleiro, o zagueiro que quis acertar a bola e só chutou a grama etc.). O único problema, como já disse aqui, é a coluna ser semanal e todos já terem conferido à exaustão os piores momentos no replay: o jeito é meter um “vale a pena ver de novo”, e vamos em frente.

Estou falando, é claro, da “demonstração de força” de Jair Bolsonaro na última terça-feira, 10, horas antes de a PEC do voto impresso ser derrubada pelo Congresso, quando o presidente atualizou as definições da expressão inglesa small dick energy e colocou para desfilar em Brasília a fina flor da sucata militar brasileira. O tal desfile durou dez minutos, mas eles foram mais que suficientes para caracterizar o vexame: nem uma Kombi meia-seis sem revisão soltaria tanta fumaça quanto alguns dos blindados envolvidos. Houvesse mais cinco minutos de micareta militar e provavelmente os gloriosos veículos do nosso não menos glorioso Exército se desmanchariam sob o sol. Como escrevi nesta coluna sobre o miliquismo de sunga, se a Guiana resolver invadir, estamos lascados.

(Todas as melhores piadas, é claro, já foram feitas nas redes: a gente não imaginava que Bolsonaro quisesse reviver 1964 com os MESMOS blindados daquela época, são veículos vintage da época da Guerra da Coreia, é uma homenagem às queimadas na Amazônia, é o Exército combatendo a dengue e mandando ver no fumacê, é a divisão terrestre da Esquadrilha da Fumaça, é uma estratégia para matar o inimigo à base de envenenamento por monóxido de carbono, foi tudo planejado pela trupe do Sargento Pincel. E também o melhor comentário: sabemos que esse governo é especialista em manobras diversionistas e cortinas de fumaça, mas ninguém esperava algo tão literal.)

Confesso que, até a terça passada, minha teoria conspiratória favorita era aquela que envolve Bussunda e Ronaldo Fenômeno: “eles” não querem que você saiba, mas na verdade quem morreu durante a Copa de 2006 foi o jogador, e quem jogou no Corinthians — e está vivo até hoje — é o humorista do Casseta & Planeta (de fato, a cada ano Ronaldo fica um pouco mais parecido com a imitação que Bussunda fazia dele). Desde terça, minha teoria preferida passou a ser outra: Jair Bolsonaro, o presidente mais burro que o Brasil já elegeu, é um cavalo de Troia da esquerda para desmoralizar completamente a direita, algo na linha “‘cês achavam a Dilma burra, né? Então toma!”. Paulo Francis dizia que a melhor propaganda anticomunista era deixar um comunista falar: contra Bolsonaro, a melhor é deixá-lo falar e fazer essas ridículas “demonstrações de força”.

É claro que, em qualquer país minimamente civilizado, Jair já teria sido enxotado do cargo pelo que falou e pelo que fez (ou, ainda pior, pelo que deliberadamente não fez diante da pandemia de Covid). Mas não vamos perder as esperanças. No momento em que termino de escrever este texto (na quinta-feira, 12), o presidente acabou de colocar um cocar na cabeça, e todo político brasileiro sabe que isso dá um azar danado: Lula colocou e foi preso, Dilma colocou e foi impichada, Ricardo Salles colocou e foi ejetado do Ministério do Meio Ambiente depois de a Polícia Federal abrir investigação. Como dizem, deve ter alguma coisa a ver com o Brasil ter sido construído em cima de um cemitério indígena.

***

A GOIABICE DA SEMANA

Não é “da semana”, já tem algum tempo, mas vale o registro: de repente, não mais que de repente, o governo federal descobriu que precisava pagar 90 bilhões de reais em precatórios — valores devidos após condenação judicial definitiva — e que isso não cabia no mesmo Orçamento do Bolsa Família turbinado para Jair Bolsonaro tentar se reeleger. Qual a brilhante solução encontrada? Uma PEC para adiar e parcelar o pagamento desses precatórios. Ou seja: um misto de calote com pedalada, por mais que Paulo Guedes jure de pé junto que não.

Pelo visto, a Advocacia-Geral da União — que deveria ter percebido a trolha se aproximando e ter brigado na Justiça para que o governo pagasse menos — estava muito ocupada perseguindo jornalistas e críticos do presidente com a Lei de Segurança Nacional, para puxar o saco do chefe e descolar aquela vaguinha no Supremo. E ainda há farialimers insistindo que Guedes é o “último liberal” no governo: já faz tempo que esse ministro metade Eike Batista e metade vendedor de carro usado se converteu em tesoureiro da campanha pela reeleição.

Jefferson Rudy/Agência SenadoPaulo Guedes diante dos precatórios: ‘Aí, sim, fomos surpreendidos novamente’

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