ReproduçãoMargaret Keenan, a primeira a receber a vacina da Pfizer fora dos testes

A salvação pela vacina

O início da vacinação no Reino Unido traz esperança para o mundo e dá a largada para a corrida dos políticos pela vacinação em massa nos diferentes países
11.12.20

Desde que a pandemia do coronavírus começou, não poderia haver imagem mais aguardada. Na já histórica terça-feira, 8, vestindo uma camiseta azul com estampa natalina — um pinguim de gorro e cachecol em vermelho e branco, sob a neve –, a britânica Margaret Keenan recebeu no ombro a vacina contra a Covid-19 de uma enfermeira das Filipinas. A senhora de 90 anos foi a primeira pessoa no mundo a receber de maneira oficial, e não em fase de testes, uma vacina contra o coronavírus, no caso, a fabricada pelo laboratório farmacêutico Pfizer e a empresa de biotecnologia BioNTech. “Isso significa que posso finalmente passar um tempo com minha família e amigos no Ano Novo, depois de ficar sozinha na maior parte de 2020”, comemorou ela em Coventry, região central da Inglaterra.

A cena, que culminou com Margareth deixando o local em uma cadeira de rodas e sendo aplaudida pelos enfermeiros, deu um nó na garganta de cidadãos do mundo todo. Ela simboliza o momento da virada de uma pandemia que já ceifou 1,5 milhão de vidas. A imagem da britânica também estimulou as pessoas a cobrar com mais ênfase de seus governantes soluções para uma imunização mais rápida.

No Reino Unido, políticos do Partido Conservador aproveitaram o momento histórico para fazer circular a narrativa de que o início da vacinação era a consagração do Brexit. Segundo eles, o país teria ficado mais ágil ao se afastar da burocrática União Europeia. “Obviamente, temos os melhores reguladores médicos”, disse Gavin Williamson, o secretário de educação, referindo-se à rapidez da NHRA, agência britânica que regula medicamentos e alimentos. “Somos muito melhores que os franceses, muito melhores que os belgas, muito melhores que os americanos. Isso não me surpreende nem um pouco, porque somos um país muito melhor do que qualquer um deles, não é?” Bobagem: a vacina foi criada por um laboratório americano em parceria com um alemão fundado por descendentes de turcos, contou com a participação de cientistas do mundo inteiro e os lotes mandados para o Reino Unido foram produzidos na na Bélgica. Além disso, países da União Europeia já estão preparados para vacinar os seus cidadãos em breve.

Boris Johnson a caminho de Bruxelas: tom nacionalista na vacinação
A celeridade britânica não guarda relação com o Brexit, que ainda não se concretizou. O tom nacionalista tampouco deve favorecer o primeiro-ministro Boris Johnson, que está correndo atrás do relógio para negociar um tratado de livre comércio com a União Europeia até o final do ano. “É improvável que Boris Johnson tenha um grande impulso na aprovação. É falso dizer que a vacina foi um benefício do Brexit. O que o governo fez foi comprar um produto da americana Pfizer e da alemã BioNTech, fabricado na Bélgica”, diz Paul James Cardwell, professor de direito na Universidade de Strathclyde e especialista em União Europeia.

O Reino Unido também não é um modelo sobre como lidar com a pandemia. A demora de Boris Johnson em acatar medidas de isolamento social gerou mais casos e aumento o número de mortes. O Reino Unido é um dos países com mais mortes para cada 100 casos confirmados. O que os reguladores britânicos fizeram foi acionar um mecanismo emergencial, que pode ser usado em situações como a de uma pandemia. Com isso, os especialistas começaram a analisar os dados dos estudos com a vacina da Pfizer em outubro, quando eles ainda não tinham sido concluídos.

Outras entidades ao redor do mundo, incluindo a brasileira Anvisa, também estão fazendo esse trabalho em paralelo. No Brasil, o problema é que a vacina se transformou numa guerra política entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria. Somente depois de Doria anunciar o início da vacinação da Coronavac para 25 de janeiro em São Paulo é que o governo federal, pressionado pela opinião pública e pelos governadores, passou a se mexer. Na quinta-feira, 10, por unanimidade, a Diretoria Colegiada da Anvisa aprovou as regras que deverão ser cumpridas por farmacêuticas para pedidos de uso emergencial de vacinas contra o novo coronavírus no Brasil. Nos processos em que for dado aval ao uso emergencial, os imunizantes poderão ser aplicados, sem que tenham obtido o registro da Anvisa. Ao fazer a solicitação, as farmacêuticas deverão especificar qual público-alvo será vacinado com o produto. Também na quinta-feira, 10, o Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, anunciou o início do envase da Coronavac, a última fase da produção da vacina. O processo é realizado na fábrica do instituto, que tem 1,8 mil metros quadrados. O governo autorizou a contratação de 120 técnicos adicionais para reforçar a produção da vacina. A meta é fabricar 1 milhão de doses a cada dia.

O ponto em que talvez os britânicos tenham mais acertado foi na estratégia de compra. Eles diversificaram ao máximo o número de fornecedores. Foram compradas 350 milhões de doses de vacinas de sete empresas diferentes. Cada britânico poderia, assim, tomar cinco doses. Ou seja, caso uma delas não se mostrasse eficiente, haveria alternativas. A Pfizer, em parceria com a  BioNTech, foi a que primeiro conseguiu o aval da agência britânica — apenas três semanas após a empresa concluir os estudos clínicos. Se houve nacionalismo com o início da vacinação, ele não existiu na hora de priorizar o imunizante. Londres não esperou que a vacina da AstraZeneca, produzida com a Universidade Oxford, pudesse ser chancelada e produzida em massa para começar a imunização em massa.

BioNTechBioNTechVacina da Pfizer e da BioNTech: 40 milhões de doses para o Reino Unido
Os países da União Europeia também se precaveram adequadamente. O bloco centralizou as compras para negociar preços melhores. “As pessoas estão aguardando a vacina chegar aos mais vulneráveis primeiro e espera-se alcançar a imunidade de rebanho antes do verão europeu. Não há um grande debate político sobre isso”, diz o cientista político Antonio Costa Pinto, da Universidade de Lisboa. Foram firmados contratos com seis empresas diferentes: Pfizer, CureVac, Moderna, Sanofi GSK (cuja vacina se mostrou ineficaz até o momento), Johnson & Johnson e AstraZeneca. Assim que as primeiras forem aprovadas pela Agência Europeia de Medicamento, elas serão disponibilizadas nos 27 países da UE. Cerca de 1,4 bilhão de doses já foram negociadas. Um dos planos que estão sendo estudados é usar vacinas de diferentes tipos na mesma população para conseguir uma imunidade maior e mais duradoura.

“Os europeus já organizaram tudo, pois estão acostumados a fazer compras de maneira centralizada”, diz a médica Fatima Marinho, conselheira técnica sênior da organização Vital Strategies, que trabalha com governos e ONGs em projetos de saúde pública. “Uma ação efetiva como essa, com um plano de vacinação já preparado, é algo que falta ao Brasil”. Os Estados Unidos também carecem de um plano nacional de vacinação. Como não há um sistema público de saúde, isso dificulta a imunização em massa da população. Ainda assim, nesta semana, o presidente eleito Joe Biden anunciou que pretende distribuir 100 milhões de doses nos primeiros 100 dias de seu governo, que começa em 20 de janeiro.

Em diversos países da Europa, os idosos começaram a receber cartas dizendo qual será o dia e o horário em que tomarão a vacina. Os comunicados começaram a ser emitidos antes mesmo de a agência europeia certificar a primeira empresa. Isso ocorre porque a aprovação é dada como certa. Ao vacinar boa parte dos seus habitantes, a Europa poderá reduzir a gravidade da segunda onda de Covid, que está crescendo com o frio do inverno, e evitar uma terceira. Países como Itália e Alemanha têm registrado recordes de mortes e voltaram a decretar medidas de restrição de circulação. Estudos já mostraram que a vacina pode reduzir a severidade dos quadros de pessoas que já estão com Covid. Assim, a vacina também diminuirá a pressão sobre os serviços de saúde”, diz a médica Fátima Marinho. Nesta terça-feira, em discurso no parlamento, a primeira-ministra Angel Merkel exortou, emocionada, os alemães a enfrentar a última prova de resistência contra a pandemia, antes da aplicação da vacina. Disse Merkel: “Se tivermos muito contato antes do Natal e for nosso último Natal com nossos avós, teremos sido negligentes. Lamento muito, mas pagar um preço diário de 590 mortes, do meu ponto de vista, não é aceitável. Precisamos fazer tudo o que pudermos para evitar o crescimento exponencial que tivemos”. Ela foi vaiada por deputados do partido Alternativa para a Alemanha, de extrema-direita, que a acusam de ser alarmista. Merkel respondeu: “Por isso, escolhi estudar física, porque tinha certeza de que, embora haja muitas coisas que podem ser ignoradas, a gravidade não é uma delas. Nem a velocidade da luz, nem outros fatos, como é o caso agora”.

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