Divulgação/redes sociais"A partir de certo momento, toda a polícia do Rio já sabia que o Adriano (da Nóbrega) era uma laranja podre"

Interferência perigosa

O ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel, que inspirou o personagem principal de Tropa de Elite, explica o risco que as milícias representam para a política -- e conta o que sabe sobre Adriano da Nóbrega
10.07.20

O ex-capitão Rodrigo Pimentel ganhou fama a partir de um personagem inspirado em sua rotina no Bope, as forças especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Coautor do livro Elite da Tropa, que inspirou a sequência de filmes Tropa de Elite, Pimentel serviu de espelho para o Capitão Nascimento, o militar durão e incorruptível que entrava em favelas para combater o crime.
Os filmes expuseram o domínio do tráfico nos bolsões de pobreza da capital fluminense e jogaram luz sobre as milícias, um fenômeno até então pouco conhecido pela maioria dos brasileiros. Um deles tratou, especificamente, das conexões entre milicianos e o mundo da política – algo que a realidade cuidou de expor em cores fortes, tempos depois.

Aos 49 anos, Pimentel segue acompanhando de perto a cena do crime organizado no Rio, seja como consultor de segurança, seja como roteirista de novas produções, como Intervenção, filme que estreia em setembro e mostra o fracasso das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, o projeto dos sonhos do enrolado Sérgio Cabral. Nesta entrevista a Crusoé, o ex-capitão traça um panorama dos novos negócios das facções cariocas, explica como elas têm tentado se infiltrar nas instituições e fala de sua relação com Adriano da Nóbrega, seu ex-companheiro de farda que virou chefe de milícia e foi morto em fevereiro, em confronto com a polícia na Bahia. Eis os principais trechos da conversa:

O sr. acaba de concluir um filme que gira em torno de um batalhão de Unidade de Polícia Pacificadora. Por que essa política fracassou?
Num primeiro momento, isso parecia muito legal, e eu comprei a ideia. Confesso que virei um entusiasta até ingênuo das UPPs. Em um segundo momento, percebi que o projeto não era sustentável. O comandante da PM disse que não tinha mais condição de abrir nenhuma UPP, não tinha mais efetivo na corporação, ela havia contratado 10 mil homens só para esse projeto. E o governador (Sérgio Cabral) queria que abrissem mais UPPs. Já era uma enganação. Não tinha mais efetivo, não tinha mais recursos humanos, não tinha mais viatura, não havia mais pagamento nem armamento, mas o governador precisava continuar inaugurando mais unidades porque a eleição estava próxima. Em algum momento, o governo começou a priorizar as UPPs em relação ao policiamento normal nas ruas, a radiopatrulha. O carioca começou a ver as ruas sem policiais. Houve, assim, uma redução do número de enfrentamento nas favelas, mas um aumento absurdo do número de roubos de rua. A cidade ficou totalmente desequilibrada. Em um terceiro momento, o Comando Vermelho percebeu que as UPPs estavam fragilizadas, o efetivo estava reduzido, e resolveu estabelecer de novo o tráfico nos becos, nas vielas. Então, recomeçaram os enfrentamentos. Num quarto momento, você percebe que as favelas pacificadas, com UPPs, já apresentavam um número de enfrentamentos maior do que antes do processo de pacificação.

E qual é a solução? As operações de enfrentamento?
Operações policial como essas que a PM desenvolve por volta das 7 horas da manhã na favela da Maré normalmente envolvem 200 policiais, helicópteros blindados, e normalmente provocam o fechamento de todas as escolas municipais e estaduais, num raio de três quilômetros, dois quilômetros. Resultado na favela: 7 mil alunos sem aula, 7 mil crianças vão voltar para casa sem merenda, a mãe não vai poder trabalhar, o pai vai ter que tomar conta da criança, vai ter bala perdida, vai ter pânico, e a PM, no final dessa operação, se tiver muita sorte, vai apreender um quilo de cocaína, um quilo de maconha, um fuzil e 2 mil dólares. Vai fazer aquela apresentação, vai jogar na estatística de apreensão de fuzis e pistolas. O que determina o nível de operacionalidade dos batalhões é quanto mais você apreender, mais profissional você foi. Mas para tirar um quilo de maconha da rua, um fuzil, você provocou uma situação na qual  7 mil alunos ficaram sem aula, provocou medo, bala perdida. Será que essa conta vale a pena? Isso não fecha.

O governador do Rio, Wilson Witzel, se elegeu anunciando que criminosos com fuzis levariam “tiro na cabecinha”. Como o sr. enxerga essa política?
É grotesco, totalmente inapropriado um governador de estado em qualquer situação falar em “tiro na cabecinha”, ou então falar em entrevista: “Não saia de casa, você vai morrer”. Não pode, porque, sem querer, ele acaba por legitimar ações policiais inadequadas. O policial que está na ponta se sente autorizado, acha que tem um mandato na mão. Ele sabe que o governador foi eleito com 60% dos votos, sabe que 60% da população está apoiando esse discurso, então lá na ponta isso vai refletir em um policial que acha que pode fazer qualquer coisa. É perigoso demais. Por outro lado, eu entendo o aumento da letalidade policial. Se você realiza mais operações, apreende mais fuzis, recupera mais cargas roubadas, captura mais traficantes com mandado de prisão em aberto, isso vai resultar em mais confrontos e mais mortes. Jornalistas dizem que a Polícia Militar está matando mais. Ora, se ela estivesse matando mais, e estivesse apreendendo menos cocaína, menos maconha, menos fuzis, prendendo menos bandidos, eu até concordaria que a polícia está mais violenta, mas se está matando mais, e todos os níveis de operacionalidade estão aumentando, é porque a polícia está trabalhando mais.

O Comando Vermelho mudou seu negócio principal?
A maior fonte de renda do Comando Vermelho hoje em várias comunidades é a venda de cigarro contrabandeado do Paraguai. E o roubo de carga hoje, em algumas favelas, não é a principal atividade. É a única atividade. Em alguns lugares, o Comando Vermelho abandonou a venda de cocaína e a venda de maconha somente para roubar carga e vender carga roubada. A carga roubada, quando é levada para dentro da favela, é distribuída muito rapidamente para os comerciantes ou o próprio Comando Vermelho abre o baú e vende essa carga. Esse é um delito de baixo potencial ofensivo, que é a receptação. Então, se a PM prender um comerciante vendendo carga roubada, esse comerciante vai responder em liberdade. O tráfico entende que vender cocaína dá dois anos de cadeia, mas vender carga roubada não dá nada. É muito mais vantajoso para o Comando Vermelho abandonar lentamente a venda de cocaína e investir cada vez mais no roubo de carga. Por causa disso, a carga formal começa a sofrer até um processo de inflação, em função da logística mais cara. O carioca paga mais caro por meio quilo de macarrão do que o paulista. O nosso meio quilo de macarrão tem embutido o valor da escolta, do seguro, num processo provocado pelo aumento dos roubos de carga. Roubam de tudo: carne, frutas, gilete, xampu, sabonete. Realizam operações de roubo diárias e vendem a mercadoria na área que dominam. O baú esvazia em questão de minutos. Na favela, é possível ver o bandido vendendo lasanha, presunto, nuggets, com preço lá embaixo. E o morador compra.

DivulgaçãoDivulgação“Surgiram coisas esquisitíssimas, como milícias daquelas antigas, formadas por policiais, se aliando às milícias novas, dos bandidos”
E as milícias, qual é o papel que elas têm hoje no Rio?
Quando alguém diz para mim que a milícia explora tudo, eu sempre falo: “Calma aí, o tráfico também explora tudo”. O mais curioso é que de uns cinco ou quatro anos para cá, muitas favelas do Comando Vermelho não queriam mais pagar royalties para pertencer à organização. Estava muito caro pagar 7 ou 8 mil reais por semana para manter a sigla Comando Vermelho, para a área não ser invadida pela facção rival, para ter proteção se tiver uma guerra. Então, em muitas favelas o traficante local levantou a mão e falou: a partir de agora nós somos milícias. Isso foge um pouco daquela ideia de que milicianos são ex-policiais. A milícia padrão é a da zona oeste, formada por policiais expulsos e ex-militares das Forças Armadas com envolvimento político. Essa, de fato, é a milícia padrão, a que gerou a cultura miliciana no Rio. Mas há uma milícia alternativa surgindo, que vem do traficante que não quer pagar para pertencer a facção nenhuma, que já tem contato para comprar cocaína, que atua com roubo de carga. Ele vira miliciano e vai continuar defendendo seu território. E aí surgiram coisas esquisitíssimas, como milícias daquelas antigas, formadas por policiais, se aliando às milícias novas, dos bandidos. Esse é o panorama do Rio de Janeiro hoje. Na minha época, você olhava para o mapa no Bope e enxergava as facções. Hoje em dia, não dá mais para fazer isso, porque é muito volátil. Os grupos mudam, fazem aliança com a força rival.

As milícias têm galgado espaços relevantes na política do Rio?
O líder do PMDB no Rio durante décadas foi o Jorge Picciani. Ele acolheu o pedido do Marcelo Freixo e abriu a CPI das Milícias (em 2008). Naquele momento, se não tivesse uma CPI, em duas ou três eleições não teria mais vaga no Rio para deputado que não fosse miliciano. Todas as pessoas que estavam ganhando as eleições no maior reduto de voto, que é a zona oeste, tinham que ter ali algum tipo de sinergia com grupos armados. Hoje, em 2020, se o Picciani não tivesse tido a coragem de fazer a CPI, e olha que eu não gosto dele, na eleição seguinte nós teríamos mais nove deputados milicianos e na outra mais 15. Aí me perguntam o que é pior, se o Comando Vermelho ou a milícia. É uma pergunta errada, porque os dois são uma merda. Mas se tiver que escolher um pior é aquele que consegue colocar o seu representante numa casa legislativa. Nunca percebemos na Alerj pessoas tentando legislar a favor do tráfico. A milícia, ao contrário do Comando Vermelho, conseguiu colocar vários representantes lá. Em algum momento, já não era mais possível colocar o pé nas comunidades de milicianos para pedir voto. A milícia proibia.

E o que essas quadrilhas já conseguiram com a infiltração na política?
Na questão fundiária, eles conseguem fazer muita coisa. Conseguem, por exemplo, na Câmara Municipal, regulamentar invasões e ocupações de terra naquelas áreas que interessam a eles. Fazem regulamentação de espaço para ocupação, vendem terreno. Toda milícia vende terreno, realiza obra. Na Muzema, onde caiu aquele prédio, a milícia pode ter atuado junto à região administrativa para evitar a fiscalização, poder ter atuado na nomeação da região administrativa local, pode ter atuado na indicação de subprefeitos, até mesmo na regularização fundiária do terreno. A milícia já fez isso em Jacarepaguá. Já regularizou terreno em encosta.

Há certa simpatia de setores da sociedade por esses grupos?
Quando a gente foi filmar Tropa de Elite I, numa favela de milícia, em Jacarepaguá, os moradores falavam assim: “Olha, você tem que mostrar para os cariocas que a milícia é uma coisa muito boa”. Faziam isso porque antes a única referência que eles tinham era o tráfico. É evidente que ao comparar a milícia ao tráfico, que torturava moradores, acabavam achando a milícia menos invasiva, menos perigosa. Mas depois de um momento a milícia começa a se comportar de forma igual. A milícia dessa favela, se estivesse passando numa rua e sentisse cheiro de maconha, invadia as casas para procurar o morador fumando maconha dentro de casa e o morador era espancado. Apanhava. Para alguns moradores conservadores, isso era maravilhoso. Mas a milícia passava logo a cobrar uma taxa de 15 reais, de 20 reais do morador — e se ele não estivesse com sua taxa paga, tomava até o que tinha na geladeira. Já teve morador que falou comigo que o miliciano abriu a geladeira dele e falou: “Você não tem dinheiro para pagar a taxa e tem dinheiro para comprar queijo, é? Vou levar teu queijo”. O miliciano não levou o queijo para comer. Ele jogou fora. Isso porque o morador não tinha depositado ou entregue os 20 reais. A milícia achava um absurdo que o morador não quisesse pagar a taxa de proteção. Essas injustiças começaram a vir à tona. Quando filmamos Tropa de Elite 2, a Rede Globo exibia uma novela sobre uma favela de milícias, em que o miliciano era representado pelo Antonio Fagundes. Ele era o cara gente boa, estava sempre desarmado, ajudando todo mundo. Era um miliciano caricato. No imaginário do brasileiro, milícia era aquilo. O que fez o entendimento do brasileiro mudar sobre milícias foi o Tropa 2. Eu fui a um debate em Manaus e havia um desembargador na mesa que falava: “Olha, a solução para o Rio de Janeiro são as milícias”. A visão dele era a da novela.

DivulgaçãoDivulgação“Vários colegas policiais tiveram um grande susto ao descobrir que a família do Adriano trabalhava no gabinete do Flávio (Bolsonaro)”
A cena final de Tropa de Elite 2 mostra políticos ligados às milícias chegando em Brasília. Isso virou realidade?
Eu sinceramente até hoje não consigo entender a relação, apesar de conhecer o Flávio (Bolsonaro) pessoalmente. Até ajudei o Flávio na campanha para senador, pedi voto. Não consegui perguntar para o Flávio por que ele deu espaço para a família do Adriano (o miliciano Adriano da Nóbrega, morto em fevereiro, acusado de chefiar o Escritório do Crime) no gabinete dele. Mas acho que ele responderia que é relação do Queiroz, que o Queiroz indicou e tal. O Adriano não era miliciano quando saiu da Polícia Militar. Ele se tornou miliciano bem depois, em 2014, 2015. Até então, era ligado ao jogo do bicho, caça-níqueis e escolas de samba. Não enxergo como verdade que a milícia tenha chegado ao Planalto. Eu acho horrível que o Adriano, envolvido com vários homicídios no Rio de Janeiro, tenha recebido vaga no gabinete do deputado estadual Flávio Bolsonaro, mas acho que isso não conecta a família à milícia. Sinceramente, espero que isso seja esclarecido. Vários colegas policiais tiveram um grande susto ao descobrir que a família do Adriano trabalhava no gabinete do Flávio. Isso é totalmente incompatível com a trajetória dele na Assembleia. O Flávio era bem relacionado com delegados, representava os interesses da classe, ia nos quartéis, nas delegacias.

Por que homenagear o Capitão Adriano?
Quando o Flávio o conheceu, o Adriano era um oficial corajoso, correto, não tinha envolvimento com nada de errado. Havia relatos no batalhão de que o Flávio gostava de atirar e que o Adriano se apresentou para ajudá-lo na aula. Era um policial do Bope. Não há nada de errado em conhecer um policial do Bope. Depois que foi preso, o Adriano me ligou várias vezes. Disse que era inocente. Eu, como muitas pessoas, acreditava. Ele insistia para mim que era honesto. O comandante do Adriano também acreditou. A partir de certo momento, toda a polícia do Rio já sabia que o Adriano era uma laranja podre. A partir daí, acho inexplicável o gabinete do Flávio continuar com contato e relações com o Adriano. O Adriano de 2008 para cá era um bicho solto, um bandidão. E a família estava amparada, recebendo verba do gabinete e possivelmente repassando essa verba para o Adriano.

Quando foi a última vez que o sr. esteve com o Capitão Adriano?
A última vez que vi o Adriano foi em 2013. Eu estava na Ilha do Governador. Estava em um restaurante aguardando um garçom e entra o Adriano, acompanhado de umas dez pessoas, pelo menos. E eu logo percebi que eram bandidos. Todo mundo mal encarado, camisa larga, pistola escondida na cintura. Eles estavam fazendo a segurança do Adriano. Aí ele veio até mim, me cumprimentou. Ele gostava de mim. Eu não perguntei o que ele estava fazendo, mas ele disse que estava tomando conta das kombis e vans da Ilha do Governador. Acontece que elas pertenciam a um traficante famoso. Se ele estava tomando conta delas, era porque tinha tomado as kombis e as vans dos traficantes. E para tomar isso do traficante tem que ter muita disposição. Tem que chegar com uma equipe de pessoas valentes e dispostas a morrer. Aquilo me chamou atenção. Ali eu sabia que ele estava em uma parada muito errada.

Àquela altura, será que o hoje senador Flávio Bolsonaro já não sabia de tudo isso?
Como é que o Flávio e o Queiroz não sabiam disso? Ou o Queiroz não sabia, ou então o Flávio deixava mesmo o Queiroz pilotar o gabinete. Até hoje não sei se a ligação do Queiroz com o Flávio é maior com o Flávio ou maior com o pai. Se você perguntar se o Queiroz é um homem do Flávio ou do Jair, eu apostaria que é homem do Jair.

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