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O deslize da Vale

Uma infeliz troca de e-mails pode definir a disputa bilionária que a maior empresa brasileira trava na justiça americana com um magnata israelense ao cabo de uma história que mistura propina, um ditador corrupto, lobby de Lula e ex-agentes do Mossad
05.06.20

“Como mencionei durante a ligação, o ambiente pobre de controle interno dá origem a fraudes”, escreveu um ex-executivo da Vale em um e-mail que pode custar bilhões à mineradora brasileira em um processo gigantesco em andamento na Justiça dos Estados Unidos. A mensagem indica um suposto acerto entre um então diretor da Vale e um chefão da Ernst & Young, uma das maiores empresas de auditoria do mundo, para suprimir trechos de um relatório que apontavam o “mais alto risco de propina e suborno” em uma negócio na Guiné.

Os e-mails de executivos da Vale, juntamente com o resultado de uma investigação feita por uma agência de inteligência privada, são a grande aposta do magnata israelense Beny Steinmetz para reverter uma indenização de 2 bilhões de dólares que um tribunal de Londres ordenou que ele pagasse à empresa brasileira. O empresário apresentou o material em um recurso movido na Justiça de Nova York no qual tenta se livrar do pagamento da multa.

Steinmetz é um bilionário da mineração de diamantes. Em 2008, ele obteve da ditadura de Lansana Conté, na Guiné,  concessão para explorar Simandou, um dos campos de minério mais cobiçados do mundo, pela bagatela de 160 milhões de dólares. Pouco tempo depois, Steinmetz vendeu 51% de sua participação à Vale por quase 16 vezes mais: 2,5 bilhões. A companhia brasileira, então comandada por Roger Agnelli, morto mais tarde em um acidente aéreo, temia que alguma de suas concorrentes globais virasse parceira do israelense na mina e passasse a oferecer minério de ferro a preços mais atrativos para o mercado chinês, por exemplo.

O e-mail enviado para o diretor da Ernst & Young: pedido para alterar relatório
O negócio bilionário entre a Vale e o magnata israelense virou pó com a morte do ditador Conté, em 2008. Ao assumir o poder dois anos depois, o opositor Alpha Condé prometeu acabar com a farra nos contratos de Simandou e, na sequência, o governo cassou a concessão, sob a acusação de que, em troca dela, Steinmetz teria recheado as contas bancárias de uma das mulheres do ditador morto. O magnata chegou a ser preso em 2016 no curso de investigações sobre seus negócios na Guiné, mas deixou a cadeia depois de um mês.

Com a implosão do negócio, a Vale processou Steinmetz em uma corte arbitral britânica. O veredicto foi favorável à companhia brasileira: o tribunal considerou que a mineradora não merecia ficar no prejuízo porque não tinha conhecimento do escândalo. Ao entender que a Vale foi “induzida a erro”, os juízes impuseram a indenização bilionária de 2 bilhões de dólares à BSGR, a empresa de Steinmetz.

Em um novo processo, desta vez na justiça americana, o israelense argumenta que não deve a indenização porque a Vale sabia que existiam indícios de fraudes na negociação original da mina com o ditador da Guiné e, portanto, também seria responsável.

Crusoé teve acesso a e-mails em que o ex-gerente-executivo de fusões da mineradora, Alex Monteiro, discute com um executivo da Ernst & Young os termos de um relatório sobre o negócio. Os documentos alertavam para os riscos da transação.

A resposta: “Me avise se você estiver feliz com as alterações e então providenciarei a emissão do relatório final”
Em uma das mensagens, aquela mesma em que menciona que “o ambiente pobre de controle interno dá origem a fraudes”, Monteiro prossegue: “Dizer que isso mostra que a companhia está no espectro de mais alto nível de risco para suborno e corrupção não é suportado por nenhuma de suas descobertas. Portanto, eu verdadeiramente acredito que uma conclusão nesse sentido deve abordar a falta de controle para evitar fraudes, nada além disso pode ser o resultado do que você listou”.

Rob Sinclair, diretor de investigações de fraude da Ernst & Young no Reino Unido, respondeu então que mudaria aquele item do relatório a pedido do executivo. “Me avise se você estiver feliz com as alterações e então providenciarei a emissão do relatório final”, escreveu. Os e-mails datam de maio de 2010, quando as negociações entre a Vale e Steinmetz estavam a todo vapor. O israelense alega que esses registros provam que a Vale sabia do potencial de problemas envolvido no negócio.

A defesa de Steinmetz também anexou ao processo nos Estados Unidos os resultados de uma investigação da Black Cube, uma agência de inteligência particular integrada por ex-agentes do Mossad, o serviço secreto de Israel. O material inclui conversas gravadas com executivos da Vale que participaram da negociação. Um deles é José Carlos Martins, então diretor da companhia. “O cara (Steinmetz) tinha bom relacionamento com todo o mundo. É bonito, e tem bom discurso. Mas sabemos que algo estava errado, não temos dúvidas sobre isso”, diz ele ao ser perguntado pelos agentes sobre a negociação.

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisSteinmetz, o bilionário israelense, tenta reverter a decisão que o obriga a indenizar a Vale
Ainda em 2011, quando o novo governo da Guiné apresentava resistência ao negócio, Roger Agnelli, então presidente da Vale, chegou a recorrer ao ex-presidente Lula para tentar amaciar a relação com o novo presidente do país africano. Pôs o petista a bordo de um jatinho e rumou para a Guiné. Era uma tentativa de contornar as restrições do novo comandante do país africano. Condé não recuou e manteve as exigências que inviabilizariam o negócio e jogariam por terra o interesse da Vale em explorar Simandou.

Um dos executivos da mineradora que acompanharam Angelli e Lula na viagem, José Carlos Martins relatou uma conversa reveladora na volta da viagem à Guiné. Nela, o petista, aparentemente, sublimava a existência de corrupção na origem do negócio: “Lula nos disse: ‘Olha, esse cara (Condé) é louco? Porque, ok, talvez haja algo errado aqui, mas seria um projeto de 10 bilhões de dólares até 12 bilhões de dólares para a Guiné. Um país que tem um PIB de até 3 bilhões de dólares. Isso mudaria totalmente o país’.”

Lula, já ex-presidente, com Agnelli e Alpha Condé na Guiné
Agora a corte de Nova York vai se debruçar sobre os argumentos das duas partes, os da Vale e os do magnata israelense, e decidir se mantém a indenização bilionária ao empresário. A decisão deve sair em breve.

A Crusoé, a Vale afirmou que o “pedido de exibição de provas do Sr. Steinmetz é mais um artifício para ele tentar fugir de sua responsabilidade perante a Vale”. “O momento de seu ajuizamento não é por acaso, pois a Vale obteve recentemente uma decisão contra Steinmetz no valor de 2 bilhões de dólares em múltiplas jurisdições e tem rastreado de maneira diligente os proventos da fraude da BSGR e o patrimônio de Steinmetz”, disse a companhia, por meio de nota.

A Vale sustenta, ainda, que “está buscando de maneira ativa a exibição de provas de pessoas e entidades suspeitas de serem ou terem conhecimento sobre parceiros comerciais de Steinmetz e destinatários dos recursos que a Vale perdeu com a fraude”. Procurados, Alex Monteiro e a Ernst & Young não quiseram se pronunciar.

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  1. Enquanto vcs se desgraçam apoiando agora um inquérito que quase fechou esta revista, nós que os apoiamos na epóca achamos até graça esta matéria.. Alguém vai ser preso? Lula voltará para a cadeia? Não. Vão te catar.

  2. Matéria muito interessante que não conhecia os detalhes. O comentário de LULA é perfeito, um país pobre e miserável, rasga um contrato e expulsa a empresa, continuará sem os investimentos bilionários e sem a renda e os empregos que iriam gerar. Mais uma oportunidade perdida na África, onde uma legião de presidentes burros, incompetentes e corruptos, destrói o futuro do próprio povo.

    1. Hã Hã. Entendi direito? Vc apoiando o maior corrupto de todos os tempos? É isso?

  3. É Brasil, qdo vc pensa que acabou aparecem outros casos de corrupção. As massas mulescas não tem como avaliar o tamanho desta corrupção. Brasil, uma Angola na corrupção dos minérios. Aqui tem coisa muito maior do que parece. É vcs discutindo o Bozo andando a cavalo. Só rindo.

    1. pois é... o mais importante é ridicularizar o presidente com o furico.... imprensa de B_STA. Um bando de PTralhas

  4. Por falar em bandidos, que pena o ""Paulinho da força do mal"" ter sido condenado a mais de 12 anos de cadeia.... deveria é ser internado num manicômio judiciário, que produz uma feliz gambiarra jurídica, isolando para sempre da sociedade os perversamente nocivos, compensando assim a imensa falta de prisão perpétua com trabalhos forçados para marginais como ele.

  5. Não importa onde, quando ou como: se o assunto é corrupção lá estavam os petralhas - e se o povo cochilar, estarão - chafurdando na lama.

  6. Que imbróglio. Para opinar tem de conhecer o contrato que a Vale assinou com o vendedor do Projeto. É impossível acreditar q a Vale, experiente como é, não soubesse desse risco. Se o contrato não prevê nada a Vale deve assumir sua parte do preju. Se no contrato estiver marcado q o Steinmetz assume esse tipo de risco aí a CVRD tem razão. Não dá p opinar sem saber do Contrato.

    1. Vc quer ler um contrato dessa magnitude pra opinar? Tá de gozação....

    1. Realmente ditadura burra que não acabou com os comunistas. Agora estão esperneanfo. Mas se não se acabarem vão ser bem colocados nos seus devidos lugares. Na lama de onde vieram!

    2. O que Bolsonaro tem a ver com isso? Quando falta inteligência é melhor não tecer comentários. A reportagem está bem feita e retrata fatos ocorrentes ainda durante a corrupta era petista que, sabidamente, se metia em tudo que pudesse lhe render alguns dólares a mais.

    3. Exatamente. Bozzo tem saudade dos tempos da ditadura burra militar onde as decisões absurdas eram aplaudidas pelos de sempre. E a Vale andando com Lula, hein? Pássaro que anda com morcego dorme de cabeça para baixo. Pobre Brasil.

  7. Empíricos através da Crusué com esta reportagem está tentando tirar vantagem no mercado financeiro. A qual leitor interessa a notícia? Nenhum.

    1. A mim interessa pois investi na vale e perdi muito com sua desvalorização !

    2. Esse José não aprende, deve ser instrumento do gabinete do ódio.

    3. Pro cara com tara homoerótica pelo presidente, nenhuma reportagem que não sirva de trampolim para reproduzir as mentiras de sempre a mando da Secom interessa. Vai ler terça fake.

    1. Se o Cachaça foi citado, pode saber que algo de muito podre estava acontecendo!

    2. Com bozo centrão seria diferente? O trombadinha roubava auxílio moradia. "Era pra comer gente "

    3. A reportagem é importantíssima e esta muito bem feita

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