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O homem, o cargo e o Estado

Por que a diplomacia exige que o governante saiba distinguir suas convicções pessoais da instituição que representa

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Maristela Basso
5 minutos de leitura 28.07.2026 10:53 comentários 0
O homem, o cargo e o Estado
Javier Milei e Flávio Bolsonaro. Foto: Vittor Sales
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A visita do presidente argentino Javier Milei (foto) ao Brasil para participar de um evento político, sem cumprir a agenda institucional que normalmente se espera entre chefes de Estado, provocou reações previsíveis.

Uns aplaudiram sua coerência ideológica. Outros lamentaram a deselegância diplomática.

Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

A questão não é saber se Milei estava politicamente certo ou errado. Tampouco interessa discutir se sua simpatia por determinados grupos políticos brasileiros é legítima. Em uma democracia, ela certamente é.

O verdadeiro problema começa quando o homem se sobrepõe ao cargo.

Existe uma diferença fundamental entre o cidadão Javier Milei e o presidente da República Argentina.

O primeiro é livre para cultivar amizades, manifestar preferências e escolher seus interlocutores.

O segundo já não pertence inteiramente a si mesmo. Ao assumir a chefia do Estado, passa a representar uma realidade muito maior do que sua própria biografia, suas convicções e até mesmo seus eleitores.

É precisamente essa transformação que dá sentido à diplomacia.

Ao contrário do que muitos imaginam, o protocolo diplomático jamais existiu para satisfazer vaidades ou preservar formalidades vazias. Sua função sempre foi outra: impedir que as paixões individuais contaminassem as relações permanentes entre os Estados.

Os governos mudam.

Os presidentes passam.

As maiorias eleitorais se alternam.

Os Estados, porém, permanecem.

É por isso que, durante séculos, a diplomacia foi construída sobre gestos de respeito recíproco, inclusive — e sobretudo — entre adversários.

A civilidade nunca significou concordância. Significou reconhecimento.

Reconhecimento de que o outro representa uma instituição cuja legitimidade independe da simpatia pessoal de quem ocupa o cargo.

Quando um chefe de Estado atravessa uma fronteira, ele não viaja sozinho. Viajam com ele sua Constituição, sua bandeira, seus tratados, sua história e milhões de cidadãos que talvez jamais compartilhem das opiniões pessoais daquele governante.

Esse é o verdadeiro peso da representação.

O protocolo diplomático protege exatamente essa dimensão simbólica. Ele recorda, a cada cerimônia e a cada encontro oficial, que os homens são transitórios, mas as instituições precisam permanecer.

Vivemos, entretanto, uma época em que a autenticidade passou a ser confundida com espontaneidade e a espontaneidade, por sua vez, com ausência de limites.

Celebram-se líderes que dizem tudo o que pensam, fazem tudo o que desejam e transformam cada gesto em demonstração pública de personalidade.

Mas governar nunca foi apenas expressar a própria personalidade.

Governar exige, antes de tudo, aprender a contê-la.

Norbert Elias demonstrou que o processo civilizador consistiu justamente na crescente capacidade de controlar impulsos em benefício da convivência social. Quanto maior o poder concentrado em uma pessoa, maior deveria ser sua capacidade de autocontenção.

A lógica contemporânea parece caminhar na direção oposta.

Hoje, muitos confundem a eliminação dos freios com coragem.

Confundem grosseria com autenticidade.

Confundem espetáculo com liderança.

No entanto, a autoridade verdadeira raramente precisa exibir-se.

Ela se manifesta justamente na capacidade de distinguir aquilo que pertence ao indivíduo daquilo que pertence à instituição.

Talvez seja essa a primeira grande renúncia exigida de todo estadista.

Aceitar que o cargo não lhe pertence.

O mandato é temporário.

A instituição é permanente.

O homem chega.

O Estado permanece.

Essa consciência exige um exercício difícil, quase sempre invisível: colocar o próprio ego em segundo plano para que fale a instituição.

É esse gesto silencioso que distingue o governante do simples ocupante do poder.

Freud ensinava que a civilização nasce quando aprendemos a limitar nossos impulsos. Lacan lembrava que o sujeito só se constitui plenamente quando reconhece uma ordem simbólica que o antecede e o limita.

As instituições pertencem exatamente a essa ordem.

Nenhum presidente é maior do que a República que representa.

Nenhum governante é maior do que o Estado cujo destino administra temporariamente.

Por isso, talvez devêssemos abandonar a pergunta sobre quem venceu ou perdeu mais um episódio da polarização política.

Há uma pergunta muito mais importante.

O governante ainda consegue perceber onde termina o homem e começa a instituição?

Porque é exatamente nessa fronteira que nasce a verdadeira estatura de um estadista.

O protocolo diplomático não protege a vaidade dos governantes.

Protege os povos contra a vaidade dos governantes.

Talvez essa seja uma das mais discretas — e também uma das mais importantes — conquistas da civilização política.

Os homens passam.

Os governos mudam.

As paixões eleitorais se renovam.

Mas a dignidade das instituições precisa permanecer.

Sem ela, desaparece aquilo que torna possível não apenas a diplomacia, mas a própria convivência entre as nações.

 

Maristela Basso é professora de direito internacional na USP

Instagram: @maristelabasso.adv

Linkedin: Maristela Basso Advogados

 

As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista

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