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    A perseguição aos cristãos e as mentiras sobre Israel

    O antissemitismo pode até começar com os judeus — mas nunca termina neles

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    Igor Sabino
    5 minutos de leitura 16.01.2026 17:22 comentários 0
    Cristãos perseguidos. Foto: Portas Abertas
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    Recentemente, a ONG Portas Abertas lançou sua tradicional Lista Mundial de Perseguição.

    O estudo, conhecido por seu rigor metodológico, classifica anualmente os 50 países mais intolerantes ao cristianismo.

    Os dados deste ano são alarmantes: estima-se que, em 2025, cerca de 388 milhões de cristãos ao redor do mundo tenham sido perseguidos por causa de sua fé — o equivalente a um em cada sete cristãos.

    Grande parte desses países é de maioria muçulmana, muitos localizados no Oriente Médio.

    Praticamente todos os membros da Liga Árabe, com exceção do Líbano e dos Emirados Árabes Unidos, figuram na lista. As causas da perseguição anticristã variam entre repressão estatal, preconceitos sistêmicos e a atuação de grupos terroristas como os Houthis e o Estado Islâmico.

    Esse é o caso, respectivamente, do Iêmen, que ocupa a terceira posição, e da Síria, em sexto lugar.

    Apesar da gravidade, esses dados têm recebido pouca atenção da mídia e de instituições internacionais.

    Teologia da libertação palestina

    Os motivos são diversos, mas ouso conjecturar que um deles seja o sentimento anti-Israel presente em diversos órgãos da ONU e em organizações de direitos humanos.

    A hostilidade ao Estado judeu, já recorrente nesses ambientes, intensificou-se nos últimos dois anos após a guerra na Faixa de Gaza, iniciada com o massacre perpetrado pelo Hamas no sul de Israel em 7 de outubro de 2023.

    Desde então, manifestações explícitas de antissemitismo têm se espalhado pelo mundo, sobretudo nas redes sociais.

    Fora a comunidade judaica, hoje os principais apoiadores de Israel são os evangélicos, especialmente os sionistas cristãos.

    Pesquisa encomendada pela StandWithUs Brasil ao instituto AtlasIntel indica que 58% dos evangélicos brasileiros têm uma visão favorável do Estado judeu.

    Nos Estados Unidos, durante décadas, o lobby sionista cristão influenciou a política externa americana em favor de Israel, sendo a transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém, em 2017, um exemplo emblemático.

    Não surpreende, portanto, a existência de movimentos anti-Israel que buscam minar esse apoio evangélico.

    Inicialmente, esses esforços se concentraram em jovens progressistas, promovendo, sobretudo nos EUA e mais recentemente no Brasil, a chamada teologia da libertação palestina.

    Dessa corrente surge, por exemplo, a falsa narrativa do “Jesus palestino”, reciclada anualmente no período do Natal.

    Mais recentemente, porém, cristãos conservadores também se tornaram alvo.

    Nesse caso, a estratégia mudou: em vez de discursos pós-coloniais, ativistas anti-Israel passaram a explorar o nacionalismo cristão, ressuscitando libelos antissemitas de origem medieval, como a acusação de que os judeus teriam assassinado Jesus ou seriam “filhos do Diabo”.

    A partir disso, tenta-se pintar Israel como um país hostil aos cristãos, o que não poderia ser mais falso, já que o Estado judeu é o único na região onde há liberdade religiosa de fato.

    Para sustentar essa narrativa, ignora-se que Israel jamais figurou na Lista Mundial de Perseguição, ao contrário de muitos de seus vizinhos. Além da Síria (6º), também aparecem na lista o Egito (42º), a Jordânia (49º), o Irã (10º) e o Catar (44º).

    O regime iraniano, que declara abertamente o desejo de exterminar Israel, é o principal financiador de grupos terroristas como Hamas e Hezbollah.

    O Catar, por sua vez, abriga lideranças do Hamas e financia grandes campanhas midiáticas contra Israel.

    Há inclusive quem sustente que a monarquia catari esteja por trás do financiamento de influenciadores conservadores nos EUA com o objetivo de enfraquecer o sionismo cristão.

    As supostas “provas” de perseguição cristã em Israel se resumem a vídeos de incidentes isolados — amplamente condenados por autoridades israelenses — envolvendo radicais judeus na Cidade Velha de Jerusalém. Na semana passada, o presidente israelense reuniu-se com lideranças cristãs para reafirmar seu compromisso com a liberdade religiosa.

    Nesse contexto, os dados da Portas Abertas são fundamentais não apenas para denunciar o sofrimento dos cristãos perseguidos, mas também para combater o antissemitismo cristão.

    Nos EUA, o crescimento desse preconceito tem produzido consequências graves, como ataques a sinagogas em Pittsburgh (2018), Poway (2019) e, recentemente, em Jackson.

    Até mesmo o presidente Trump reconheceu, em entrevista ao The New York Times, a presença de antissemitas entre seus apoiadores, apesar de sua postura pró-Israel.

    Líderes evangélicos também têm se visto obrigados a tratar do tema diante do aumento desse discurso entre jovens fiéis.

    Tudo isso evidencia que o antissemitismo pode até começar com os judeus — mas nunca termina neles.

    Nesse sentido, lutar por liberdade religiosa para os cristãos no Oriente Médio também implica combater teorias da conspiração anti-Israel, o que torna a causa duplamente impopular.

    E, justamente por isso, ainda mais necessária.

     

    Igor Sabino é doutor em Ciência Política (UFPE) e gerente de conteúdo da StandWithUs Brasil. É autor do livro Jesus, um judeu.

    X: @igorhsabino

    Instagram: igorhsabino

     

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